Do Estadão de ontem
A depressão nos salva da alegria de mercado
Arnaldo Jabor
A depressão não é comercial, me disse uma bichinha chorando, um costureiro à beira do suicídio que tinha de sorrir sempre, para as freguesas, para as fotos, senão perdia a clientela e a fama.
Por acaso, no mesmo dia, fui ver As Horas - baseado na vida e nos textos de Virginia Woolf, a grande escritora suicida -, filme em que correm paralelas três fases da infelicidade da mulher nos últimos cem anos: a depressão pós-vitoriana, a depressão dos anos 50 e a depressão de hoje.
O filme é ótimo e, além disso, achei uma delícia me banhar na tristeza sem salvação, num mergulho mortal no mundo do desespero, para contrabalançar um pouco a obrigação de ser feliz que nos enfiaram na alma.
Hoje, é proibido sofrer. Temos é de "funcionar", temos de rir, de gozar, de ser belos, magros, chiques, tesudos, em suma, temos de ser uma mímica dos produtos de "qualidade total". Para isso, há o Prozac, o Viagra, o Xenical, os uppers e downers; senão, nos encostam como arcaicos, depreciados como um velho liquidificador.
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